Por que as grandes empresas querem se aproximar de startups?

Se pensarmos bem, é muito estranho pensar que um conglomerado multibilionário poderia ganhar algo ao se associar de alguma forma a 3 meninos ou meninas que ganham basicamente nada e tem um produto recém lançado no mercado. Existe algo a ser aprendido ali? Algum valor a ser capturado? Os executivos destas empresas definitivamente acreditam que sim.

Invariavelmente nos deparamos com uma encomenda que veio do CEO ou de outro executivo C-level preocupado com o ritmo em que a empresa está inovando. Comparando ao restante do mercado e entendendo que existe uma probabilidade desta empresa não estar viva nos próximos dez anos, estes executivos começam a pensar em como criar formas de inovar de maneira mais rápida e mais ousada.

Os ciclos de desenvolvimento de produto são longos, com taxas de sucesso bastante questionáveis e ações de marketing que geram cada vez menos retorno. Ao mesmo tempo vemos diariamente na mídia casos de jovens empresas inovando, quebrando paradigmas e criando novos mercados. Empresas que há poucos anos não existiam e hoje criam verdadeiras revoluções nos mercados onde entram. Casos como o Uber, Facebook, AirBnb e tantos outros não param de surgir.

E as grandes empresas começam a questionar.

  • O que estamos fazendo de errado?
  • Por que não conseguimos inovar no mesmo ritmo que uma startup?
  • Qual a solução para resolver este problema?

A partir deste terceiro questionamento, surgem as primeiras ideias de aproximação com o mundo empreendedor. “Precisamos entender melhor como funciona este mundo e como nos inserimos!”. E daí surgem, onipresentes, o envio de funcionários para fazer tour no Vale e a rodada de reuniões com os agentes do ecossistema.

Durante esta fase, geralmente é feito um relatório pelas equipes de inovação ou por uma empresa (cara) de consultoria, que entrega as seguintes conclusões:

  • O mundo está mudando. O ritmo da inovação é acelerado.
  • Estes caras (startups) trabalham de um jeito diferente, portanto colhem resultados diferentes.
  • Precisamos entender estas novas metodologias, para aplicar dentro de casa;
  • É fundamental nos aproximarmos das startups, ou vamos morrer na praia.
  • Somos lentos e burocráticos, e isso impede que a inovação aconteça da forma que queremos.

O plano de ação desenhado geralmente passa por alguma ação conduzida pela área de marketing ou de inovação, envolvendo projetos de aproximação com o mundo das startups. As equipes também passam a frequentar eventos e espaços focados em startups no Brasil e no exterior.

Os projetos variam de concursos e hackatons a programas mais estruturados, sendo estes a minoria no mercado.

O sistema de recompensa interno nas grandes empresas começa a cobrar os resultados depois de algum tempo e estes resultados começam a ser explicitados a partir de métricas como “número de parcerias fechadas com startups” ou “empresas inscritas no concurso criado”. O problema é que as empresas não vivem de métricas de vaidade e é fundamental comprovar resultados claros para o negócio. E os programas começam a perder fôlego, mesmo com todo o esforço e energia da área de inovação, que busca alternativas para convencer os executivos da companhia.

Este convencimento é desgastante, pois toda a estrutura de recompensa das empresas não foi feita para acomodar projetos como este. “Eu preciso atingir minha meta do trimestre, ainda mais no meio desta crise. Não tenho tempo para ajudar esta startup.”, diz o diretor comercial da empresa, quando é feita uma reunião para tentar ajudar aquela startup na distribuição de seu produto. “O produto não está no estágio que queremos”, diz outro diretor. E a iniciativa acaba frustrando a própria startup, que acreditava ter encontrado um potencial parceiro para ajudá-la a crescer.

Olhando sob a ótica da startup, uma grande empresa pode ser aquela bala de prata que estávamos esperando para conseguir ganhar tração. Com milhares de clientes e uma máquina de distribuição, se atingirmos apenas um percentual pequeno já conseguimos chegar a outro patamar.

Por que Programas de Inovação falham?

Mas mesmo depois de tanto esforço, o projeto não acontece desta forma. Ele demora. São milhares de reuniões, sem fechar contrato ou sequer começar um piloto. E aquelas startups que surgiram no concurso ou hackaton? Aquelas idéias promissoras, que faziam todo sentido? Acabaram morrendo de inanição. Ninguém tocou. O projeto não avançou. E continuamos na estaca zero. Por que?

Por que os programas de inovação de grandes empresas falham?

Excesso de expectativa

Embora as grandes empresas tenham a ilusão que serão mais inovadoras se conviverem mais com startups, o que acaba acontecendo é o oposto. Existe uma expectativa de que o pozinho “pirlimpimpim” da startup vá respingar na empresa e ela se tornará mais ágil, enxuta, tomará mais riscos. Mas o que acontece é exatamente o contrário. Os anticorpos que impedem a inovação na grande corporação, contaminam as pequenas e frágeis startups, que imediatamente reduzem sua taxa de crescimento e passam a aguardar por “aquela” chance, aquela grana ou aquele apoio e acabam se frustrando. E não é por má vontade, mas exatamente o que faz uma grande empresa funcionar é o que come startups no café da manhã.

O que fazer com essa startup?

Muitas vezes não se sabe o que fazer com as startups, uma vez se aproximando delas. Devemos colocar dinheiro? Assinar um contrato de exclusividade? Contratar a empresa? A maioria dos acordos acaba virando uma “parceria”, que demora para sair e tem resultados frustrantes. Esta falta de uma “estratégia de casamento” é uma coisa muito comum. E acaba frustrando todos os envolvidos. Com os maiores danos sendo feitos para nas startups, obviamente.

Prazo irreal

As expectativas de prazo são irreais. Na verdade são reais, mas dentro do cronograma usual das grandes empresas. Os resultados são trimestrais, no máximo anuais. Uma startup demora alguns anos para sair do chão. Três, cinco, ou até mais em muitos casos. Quem tem paciência de esperar? E de tolerar todos os erros que acontecerão no caminho? E que executivo fica no cargo o tempo suficiente para capitalizar em cima destes resultados?

Quem é que manda?

As empresas querem controle. Não estão acostumadas a deixar a startup ter liberdade para determinar o seu próprio rumo. E é um paradoxo, pois se as empresas soubessem o que deveria ser feito elas estariam fazendo e não gastando tempo tentando encontrar startups. Este medo da falta de controle é muito comum e faz sentido dentro da estrutura tradicional, mas definitivamente é um dos grandes componentes daqueles anticorpos que mencionei.

Startup como fornecedor

As empresas acham que sabem o que precisam. Para mim, o maior teste é quando uma empresa olha para uma startup e pensa: “nossa, é exatamente o que precisamos para o projeto X ou Y”. Nesta hora ela não está olhando para a startup como uma potencial fonte de inovação, mas basicamente como um fornecedor mais barato. Ninguém sabe o que vai acontecer no mercado nos próximos anos, mas existe uma boa probabilidade de esta idéia ser considerada absolutamente maluca pela empresa hoje. E já sabemos o que acontecem com idéias malucas no mundo corporativo.

Mas existem saídas e alternativas? Sem dúvida! Existem várias empresas colhendo resultados, das mais diferentes formas. Vou falar um pouco destes formatos nos próximos artigos (Dica: assine nossa newsletter para não perder nada!)

*Post originalmente publicado no LinkedIn Pulse